Caraíva: séculos de história

Pesquisas recentemente realizadas consideraram a possibilidade da presença do homem branco europeu na barra do Rio Caraíva desde a primeira metade do seculo XVI. Certamente da primeira geração de descendentes dos quatro marinheiros que Cabral deixou na suposta e recém descoberta “ilha” de Santa Cruz, nome com o qual o Brasil originalmente foi batizado, antes de retomar o rumo para a Índia em 02 de maio de 1500.

O próprio nome já indica suas origens: “caraíva” deriva do vocábulo “caraíba”, que em quase todas as línguas indígenas da América do Sul e da América Central simboliza o invasor, o estrangeiro ou, em resumo, o branco europeu.

Na verdade, Porto Seguro não foi o primeiro local em terra conhecido pelos integrantes da esquadra de Cabral. Sabido que que as grandes caravelas só se acercaram realmente de terra quando alcançaram os limites de Coroa Vermelha, o fato é que desde a primeira aproximação do litoral, na barra do Rio Caí (aproximadamente 30 km ao sul de Caraíva), feita em pequenos batelões movidos por remos e velas, a visão daquelas jovens índias desnudas cercadas pela natureza exuberante deve ter alimentado a crença dos marinheiros recém-chegados da fria Lisboa na existência de um paraíso terrestre.

Pouco se sabe sobre a história do Brasil nos quase cem anos que se seguiram a sua descoberta, mas existe a possibilidade concreta de Caraíva ser o primeiro e mais antigo assentamento de não-índios em solo brasileiro.

A história de Caraíva ao longo dos tempos é de certa forma obscura e esteve sempre ligada à exploração de seus recursos naturais (aves e animais exóticos em primeiro, seguidos do pau-brasil e depois, mais modernamente, as madeiras nobres), fato que determinou a presença secular do homem branco neste pequeno pedaço de terra e que levou a própria Funai, ao fincar os marcos da Reserva indígena de Monte Pascoal, a preservar essa incontestável realidade histórica, excluindo Caraíva de seus limites.

Na primeira metade do século XX Caraíva viveu seu apogeu econômico. A vila dispunha de uma grande serraria instalada na beira do rio, perto de onde se situa, hoje, o tradicional restaurante “Boteco do Pará”. Dali as toras de jacarandá da Bahia e outras madeiras de lei eram embarcadas para serem levadas diretamente aos mercados da Europa e Japão. A exploração descontrolada da madeira e a explosão da caldeira a vapor que movia a serraria marcaram o fim dessa “era de ouro” de Caraíva.

Da metade da década de 40 ao início dos anos 70 Caraíva permaneceu praticamente isolada do assim chamado mundo civilizado, vivendo basicamente da atividade pesqueira artesanal. Já sem o telégrafo que funcionou durante muitos anos na Rua da Estação, as noticias chegavam através dos poucos rádios existentes.

Com a construção da rodovia BR-101, que ligou o país pelo litoral e com consequente crescimento de Porto Seguro, Arraial d’Ajuda e Trancoso, começaram a desembarcar em Caraíva os pioneiros do que hoje se designa por turismo ecológico, algum dos quais terminaram se fixando na vila.

Caraíva do século XXI

Quase 40 anos depois da sua “redescoberta” Caraíva desponta como um destino turístico com características tão próprias e tão especiais que a tornam um dos pequenos paraísos deste planeta.

Em Caraíva não entram automóveis. As ruas são de areia e o transporte de carga e bagagens e feito em carroças. Gracas a um projeto de transmissão subterrânea pioneiro no Brasil a vila agora conta com energia elétrica. E por inexistir iluminação pública, brinda seus visitantes com o céu mais estrelado de que se tem conhecimento. Não há postes, fios e transformadores visíveis, circunstancia que ajuda a preservar o visual mágico do lugar. Desde 2007 contamos com telefone e internet de alta velocidade.

Enfim, podemos dizer que em Caraíva o progresso chegou mas não estragou.

Todos esses detalhes reunidos constituem um diferencial único no planeta. No Brasil apenas pouquíssimos lugares como as ilhas Grande e Paqueta (RJ) e a Ilha do Mel (PR) podem ostentar a condição de viverem sem os inconvenientes da presença do automóvel, embora nenhuma delas disponha de um sistema de energia similar.

Gracas ao voluntarismo de seus fundadores e de empresas que aderiram a ideia, a ONG Caraíva Viva oferece gratuitamente mais de uma duzia de cursos e disciplinas aos jovens da comunidade, abrindo-lhes novas perspectivas para o futuro.

Em 2015, se bem sucedido o projeto de zerar a existência de resíduos sólidos através de compostagem, re-utilização e reciclagem, Caraíva pudera dispensar a retirada de toda especie de lixo.

Caraíva é democrática, ecologicamente correta e culturalmente moderna!

Infra-estrutura de Caraíva

A vila de cerca 400 habitantes abriga em torno de 30 pousadas e outras tantas casas de aluguel. Artesanato pataxó, roupas de verão e outros artigos básicos são encontrados no comércio local. Três ótimas pizzarias, bares agitados, bistrôs charmosos e perto de uma duzia de bons restaurantes resumem o que existe em termos gastronômicos em Caraíva.

Existe um posto de saúde e uma farmácia. Caraíva não dispõe de bancos. Caixas automáticos do Bradesco, Itaú, Caixa Econômica, HSBC e Banco do Brasil são encontrados somente em Porto Seguro, Arraial d’Ajuda e Trancoso. Mas uma grande parte das pousadas e estabelecimentos comerciais aceitam cartões de crédito e alguns fazem câmbio de dólar e euro. Melhor obter informações mais detalhadas antes da chegada.